domingo, 9 de janeiro de 2011

O CARRASCO.

No final dos dias, ao entardecer,
mãos de outros, tuas impróprias mãos,
arrastam nas terras pútridas de um campo
por entre os reflexos de um sol sem brilho
as carcaças sombrias dos martirizados.
De uma janela distante
os olhos azuis, lacrimejantes,
degustam sinistra obra.
A cabeça, meio de lado, pensativa, louca,
faz com que delírios flutuem
por regiões disformes.
De um salto, à transparência
e transmutado é o sangue que corre
nas suas veias: do rubro ao azul celeste.
Lábios trêmulos deixam-se morderem-se
pelos dentes afiados e,
ao sentir o sangue fresco a escorrer-lhe, saboreia-o.
Pegando-o entre as mãos,
olha para o céu cinzento e pensa:
(não é da côr dos meus olhos ...?)
E das nuvens escuras
surgem abutres com vôo de águias
que cospem fogo, encanta-o,
deixa-se ficar imóvel
e um riso débil, infinito, se sobressai ...

Por RUI RICARDO RAMOS.

NOTA: Texto poetizado em 15.10.1986. Inédito!

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