quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O POVOADO.

Poeira que reluz e cai em flocos
gravetos que se agitam e rolam,
uiva o vento nos encontros mal bitolados
das palafitas.
Carcarás que planam sob o céu azul e escaldante,
cães esqueléticos que relacham na sombra escassa
do arbusto disfarçando a dor da fome,
crianças nuas e descalças de barrigas quebradas,
choram ao pé do quiçaba
imbecilizadas geneticamente pela fome.
Mulheres paridas de pouco
acalentam suas crias ao pé do poiá,
homens impedidos de plantar pela secura da terra,
confeccionam pacarás
e vendem-nos aos raros andantes daquela estrada.
A tardinha, carrancas magras e bem melaninadas
se postam nas janelas, dando a impressão
de serem velhas molduras castigadas pelo tempo.
Seus olhares serenos se deixam fixar
ao longo daquela estrada
como se nela morassem os seus sonhos
e as suas esperanças.
De noite, a fumaça das chamas
enegrecem os seus pedestrais;
homens fumam, crianças toçem,
mulheres de pernas cançadas
e de varizes dilatadas,
frutos de um resguardo mal resguardado.
E assim levam a vida,
na eterna rotina
do conceber ao decompor da matéria.
Creio eu que,
pela passividade daqueles sêres,
seus espíritos nunca estiveram
presentes em seus corpos.
Para eles a vida passa assim,
naquele povoado,
tendo como únicas novidades, os seus extremos.

Por RUI RICARDO RAMOS.

NOTA: Texto poetizado em 1978. Inédito!

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